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Dinheiro extra e como ele é gasto: o que dizem as pesquisas

Dinheiro extra tem um comportamento próprio, e a pesquisa mostra que até o nome dado a ele muda o quanto vai embora. Os estudos abaixo são dos Estados Unidos e tratam de devoluções de imposto e pagamentos de estímulo, não do 13º salário, mas o princípio se aplica: o dinheiro que chega sem destino definido já chega com um destino padrão.

Bônus ou devolução: o nome muda o gasto

Nicholas Epley, Dennis Mak e Lorraine Chen Idson publicaram no Journal of Behavioral Decision Making, em 2006, o estudo mais direto sobre isso. A ideia testada é que as decisões de consumo dependem menos da riqueza absoluta e mais da mudança percebida, calculada comparando o estado atual com um estado anterior. Os autores previram, e quatro experimentos confirmaram, que as pessoas são mais propensas a gastar uma renda enquadrada como ganho em relação ao estado atual do que a mesma renda enquadrada como retorno a um estado anterior. Os testes cobriram memória de gasto de uma devolução de imposto do governo, relatos sobre gastar um dinheiro inesperado e gasto real em itens à venda num experimento de laboratório.

O que as pessoas dizem que vão fazer e o que fazem

Matthew Shapiro e Joel Slemrod relataram no American Economic Review, em 2003, que poucos domicílios disseram que a devolução de imposto de 2001 os levou principalmente a aumentar o consumo. Já Jonathan Parker, Nicholas Souleles, David Johnson e Robert McClelland, no mesmo periódico em 2013, mediram o comportamento real dos pagamentos de estímulo de 2008 usando datas de desembolso aleatorizadas: os domicílios gastaram entre 12 e 30 por cento do valor em bens não duráveis no trimestre do recebimento e significativamente mais em duráveis, principalmente veículos, levando a resposta total para algo entre 50 e 90 por cento do pagamento. A distância entre intenção declarada e comportamento observado é o achado.

Aplicando ao 13º salário

O 13º é o dinheiro extra mais previsível do calendário brasileiro: chega no fim do ano, em duas parcelas, no valor que o seu contracheque mostra, e todo mundo sabe disso com meses de antecedência. Pela leitura das fontes, duas coisas trabalham contra ele. Primeiro, é fácil enquadrá-lo como ganho, um dinheiro a mais, o que segundo Epley e coautores aumenta a propensão a gastar. Segundo, a intenção de guardar não prevê o comportamento. O antídoto compatível com a evidência é dar nome e destino ao valor antes de ele cair, dividindo-o em envelopes já existentes: dívida, Reservas Programadas de janeiro, reserva de emergência, e uma fatia declarada de Lazer.

Por que decidir antes é diferente de prometer

Prometer que vai guardar é exatamente o comportamento que Shapiro e Slemrod capturaram em pesquisa e que o estudo dos pagamentos de estímulo mostrou não se sustentar no dado de gasto. Decidir antes é outra coisa: é escrever os valores por envelope enquanto o dinheiro ainda não existe na conta, de forma que, no dia em que ele cai, não há uma decisão a tomar e sim uma transferência a executar. É a mesma lógica que faz o método dos envelopes funcionar num mês comum, aplicada ao maior evento de caixa do ano. E vale casar isso com o calendário: janeiro chega logo depois, com IPVA, IPTU, matrícula e material escolar.

Os limites destas fontes

Nenhum dos três estudos trata do 13º salário, de PLR ou de restituição do imposto no Brasil, e nenhum usa amostra brasileira. Devolução de imposto e pagamento de estímulo são eventos com origem, previsibilidade e significado diferentes de um salário adicional garantido por lei. Os percentuais citados descrevem episódios específicos da economia americana em 2001 e 2008 e não devem ser transportados como se fossem a taxa esperada de gasto do 13º de alguém. O que atravessa é o princípio de enquadramento, que é comportamental e testado em laboratório: o mesmo valor, com nomes diferentes, produz decisões diferentes.

Fontes

Todas as fontes abaixo foram consultadas e conferidas. Os resultados são relatados como a fonte os apresenta.

Dúvidas comuns

Por que dinheiro extra some tão rápido?

Epley, Mak e Idson relatam que a mesma quantia é mais gasta quando enquadrada como ganho em relação ao estado atual do que como retorno a um estado anterior. Dinheiro que chega com o rótulo de sobra tende a ser tratado como sobra.

Adianta prometer que vou guardar o 13º?

A pesquisa sugere que não muito. Em pesquisa declarada, poucos domicílios disseram que a devolução de imposto os levou a aumentar consumo, mas a medida de gasto real dos pagamentos de estímulo de 2008 encontrou resposta bem alta. Escrever o destino por envelope antes de o dinheiro cair é mais confiável do que a intenção.

Como dividir o 13º entre os envelopes?

Pelo valor que o seu contracheque mostrar, e antes de ele cair. Uma ordem que costuma fazer sentido é dívida cara primeiro, depois as Reservas Programadas das contas de janeiro, depois a reserva de emergência, e uma fatia declarada de Lazer para o plano não morrer de austeridade.

Esses estudos falam do 13º salário brasileiro?

Não. Eles tratam de devoluções de imposto e pagamentos de estímulo nos Estados Unidos, com amostras americanas. O que se aproveita é o efeito de enquadramento e a diferença entre intenção declarada e gasto observado, não os percentuais.

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