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Fazer orçamento funciona? O que dizem as pesquisas
Existe pesquisa séria sobre orçamentos, e ela é menos animadora e mais útil do que a promessa de marketing. Os estudos citados aqui, todos com amostras dos Estados Unidos, mostram que orçar por categoria muda o consumo, que previsões de gasto para o próximo mês ficam bem abaixo do gasto registrado e que despesas excepcionais escapam quase sempre.
Orçar por categoria muda o consumo, para os dois lados
Chip Heath e Jack Soll publicaram no Journal of Consumer Research, em 1996, o trabalho que fundamenta a ideia de orçamento mental. Consumidores definem orçamentos para categorias de despesa, como lazer, e acompanham os gastos contra esse limite. Como nenhum orçamento consegue antecipar perfeitamente as oportunidades de consumo, as pessoas reservam dinheiro demais ou de menos para uma categoria, e por isso consomem demais ou de menos dentro dela. Os autores relatam ainda que os efeitos são maiores para compras muito típicas da categoria, que reduzem o valor gasto ali e bloqueiam a compra de outros itens típicos. Ou seja: orçar por categoria funciona, e funcionar significa mudar o comportamento inclusive quando o limite estava errado.
Seu orçamento para o mês que vem é otimista demais
Gülden Ülkümen, Manoj Thomas e Vicki Morwitz relataram no Journal of Consumer Research, em 2008, um resultado que qualquer pessoa que já montou orçamento reconhece. Orçamentos planejados para o próximo mês ficaram bem abaixo das despesas registradas, enquanto os orçamentos feitos para o próximo ano ficaram mais próximos do gasto real. A explicação proposta é sobre confiança: estimar o ano é difícil, a dificuldade gera pouca confiança na própria estimativa e leva a um ajuste para cima. Quando os autores aumentaram a confiança dos participantes, ou restringiram os recursos cognitivos deles, esse ajuste para cima desapareceu. A lição prática é desconfiar do seu número mensal, não do seu número anual.
O gasto excepcional é o que quebra o mês
Abigail Sussman e Adam Alter publicaram no Journal of Consumer Research, em 2012, um estudo sobre despesas excepcionais. As pessoas são razoavelmente boas em prever quanto vão gastar com itens comuns e, ao mesmo tempo, subestimam o total do gasto excepcional e gastam demais em cada compra excepcional individual. A explicação dos autores é de contabilidade mental estreita: cada despesa fora do comum é tratada como um evento único, e não como parte de uma categoria que se repete. No calendário brasileiro isso descreve bem o presente de aniversário, o conserto do carro, a festa e a viagem de Carnaval, que individualmente parecem exceção e somados formam uma linha fixa do ano.
O que fazer com esses três achados juntos
Se orçar por categoria muda o comportamento, se o número mensal tende a ser otimista e se o excepcional é sistematicamente subestimado, a conclusão prática é montar o orçamento em duas camadas. A primeira são os envelopes do mês, calibrados não pela sua estimativa e sim pelo que você de fato gastou nos últimos meses. A segunda são as Reservas Programadas, que existem justamente para capturar o excepcional recorrente: IPVA, material escolar, presentes, manutenção, seguro anual. Sem a segunda camada, o gasto excepcional aparece como se fosse um imprevisto, e a conclusão errada de que o orçamento não funciona vem logo depois.
O que a evidência não sustenta
Nenhuma dessas fontes mostra que fazer orçamento aumenta a poupança ao longo de um ano, e nenhuma testa aplicativos, planilhas ou o método dos envelopes especificamente. São estudos de comportamento de consumo com participantes dos Estados Unidos, em contextos de compra que não incluem parcelamento sem juros, Pix ou renda que chega em duas partes no mês. O que se pode afirmar com apoio nas fontes é que definir e acompanhar limites por categoria altera decisões de consumo, e que as previsões que você faz sobre si mesmo são enviesadas de formas conhecidas. Isso já basta para desenhar um sistema melhor, e não basta para prometer resultado.
Fontes
Todas as fontes abaixo foram consultadas e conferidas. Os resultados são relatados como a fonte os apresenta.
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Mental Budgeting and Consumer Decisions
— Journal of Consumer Research, 1996
Consumidores definem orçamentos para categorias de despesa e acompanham os gastos contra esse orçamento; como os orçamentos não conseguem antecipar perfeitamente as oportunidades de consumo, as pessoas reservam dinheiro demais ou de menos e por isso consomem demais ou de menos naquela categoria, com efeitos maiores para compras muito típicas da categoria. Volume 23, número 1, páginas 40 a 52. -
Will I Spend More in 12 Months or a Year? The Effect of Ease of Estimation and Confidence on Budget Estimates
— Journal of Consumer Research, 2008
Orçamentos planejados para o próximo mês ficaram bem abaixo das despesas registradas, enquanto os planejados para o próximo ano ficaram mais próximos delas. A dificuldade de estimar o ano gera baixa confiança e leva a um ajuste para cima, que desaparece quando a confiança é aumentada ou quando os recursos cognitivos são restringidos. Volume 35, número 2, páginas 245 a 256. -
The Exception Is the Rule: Underestimating and Overspending on Exceptional Expenses
— Journal of Consumer Research, 2012
As pessoas são razoavelmente boas em orçar e prever quanto vão gastar com itens comuns, mas subestimam o total do gasto com compras excepcionais e gastam demais em cada compra excepcional individual, o que os autores atribuem a uma contabilidade mental estreita que trata cada despesa fora do comum como evento único. Volume 39, número 4, páginas 800 a 814.
Dúvidas comuns
Fazer orçamento realmente faz alguém gastar menos?
As fontes desta página não medem isso. Heath e Soll mostram que definir limites por categoria altera o consumo, para mais ou para menos, dependendo de a reserva ter sido grande ou pequena demais. Quem promete redução garantida de gastos está indo além do que a pesquisa sustenta.
Por que meu orçamento do mês nunca fecha?
Ülkümen, Thomas e Morwitz relatam que orçamentos planejados para o próximo mês ficam bem abaixo das despesas registradas, enquanto os feitos para o ano ficam mais perto. Calibrar os envelopes pelo gasto real dos últimos meses, e não pela sua estimativa, corrige boa parte desse viés.
Como incluir os gastos que são exceção?
Tratando-os como categoria e não como evento. Sussman e Alter relatam que as pessoas subestimam o total do gasto excepcional e gastam demais em cada um deles. Reservas Programadas com valor mensal fixo transformam o excepcional recorrente em uma linha previsível do orçamento.
Esses estudos valem para o Brasil?
Os mecanismos descritos são gerais, mas as amostras são dos Estados Unidos e os contextos de compra são diferentes daqui. Nenhum deles mediu parcelamento sem juros nem transferências instantâneas, que são as engrenagens onde um orçamento brasileiro costuma se desfazer.
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