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Inflação do estilo de vida e comparação social: o que dizem as pesquisas
Quase todo mundo já viveu a experiência de aumentar a renda e continuar sem sobrar dinheiro. A pesquisa dá nome a parte disso: a exposição ao padrão de consumo de quem ganha mais desloca o consumo dos demais, especialmente em bens visíveis. Os estudos abaixo são dos Estados Unidos e da Holanda, e são relatados como as fontes os apresentam.
Consumo que escorre para baixo
Marianne Bertrand e Adair Morse, em trabalho publicado como Working Paper do National Bureau of Economic Research em 2013 e depois no Review of Economics and Statistics, mostraram que domicílios não ricos consomem uma parcela maior da renda corrente quando estão expostos a rendas mais altas no topo. O consumo de bens e serviços mais visíveis e mais elásticos à renda é particularmente responsivo. Os autores estimam que domicílios de renda média teriam poupado entre 2,6 e 3,2 por cento a mais até meados dos anos 2000 se as rendas do topo tivessem crescido no mesmo ritmo da renda mediana, e relatam que a exposição a rendas mais altas prevê mais relato de aperto financeiro e mais pedidos de falência pessoal.
O carro novo do vizinho, medido de verdade
Kuhn, Kooreman, Soetevent e Kapteyn publicaram no American Economic Review, em 2011, um estudo com a Loteria de Código Postal holandesa, que sorteia semanalmente um código postal e distribui prêmio em dinheiro e um carro aos participantes daquela área. O desenho permite algo raro: um choque de renda praticamente aleatório e localizado. Os efeitos sobre o consumo dos ganhadores ficaram em grande parte concentrados em carros e outros bens duráveis. E, o mais citado, quem não participava da loteria mas morava ao lado de um ganhador apresentou consumo de automóvel significativamente mais alto do que outros não participantes. O vizinho ganhou, e o consumo do lado mudou.
Por que aumento de renda evapora
Juntando os dois resultados, o mecanismo fica plausível: o padrão de referência não é o seu ano passado, é o que você vê ao redor, e o que você vê ao redor tende a ser visível por definição. Carro, celular, viagem, reforma e restaurante são justamente as categorias que sinalizam. Salário maior não muda nada disso automaticamente, porque o aumento chega sem destino e o destino padrão é o consumo que estava logo ali. A conta é sempre a mesma: se um aumento não recebe uma ordem escrita antes de cair, ele é absorvido pelos envelopes variáveis e some sem que ninguém tenha decidido nada.
A defesa prática, sem moralismo
A resposta que sobrevive a esses achados não é viver com menos, é destinar o aumento antes de ele chegar. Quando a renda sobe, o movimento honesto é decidir de antemão qual fração vai para Poupança e para as Reservas Programadas e deixar os envelopes variáveis onde estavam por alguns meses, para ver se a mudança se sustenta. Vale também escolher com quem você se compara, o que é menos ingênuo do que parece: exposição é uma variável nos dois estudos, e feed é exposição. Nenhuma fonte aqui testou essas medidas, então são aplicações de princípio, não intervenções validadas.
O que estas fontes não cobrem
Uma amostra é norte-americana e a outra é holandesa, em mercados de crédito, moradia e consumo bem diferentes do brasileiro. Nenhuma das duas mede parcelamento sem juros, que é o instrumento pelo qual boa parte do consumo por comparação acontece aqui, nem redes sociais como canal de exposição. Os números citados, incluindo a estimativa de poupança adicional, pertencem ao contexto original e não devem ser lidos como se descrevessem domicílios brasileiros. O que se transporta bem é a estrutura do argumento: exposição a padrões mais altos muda consumo, e o efeito se concentra no que é visível para os outros.
Fontes
Todas as fontes abaixo foram consultadas e conferidas. Os resultados são relatados como a fonte os apresenta.
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Trickle-Down Consumption
— NBER Working Paper No. 18883 / The Review of Economics and Statistics, 2013
Domicílios não ricos consomem parcela maior da renda corrente quando expostos a rendas mais altas no topo, com o consumo de bens mais visíveis e mais elásticos à renda particularmente responsivo. Os autores estimam que domicílios de renda média teriam poupado entre 2,6 e 3,2 por cento a mais até meados dos anos 2000 se as rendas do topo tivessem crescido no ritmo da renda mediana, e relatam mais relato de aperto financeiro e mais pedidos de falência pessoal associados à exposição. -
The Effects of Lottery Prizes on Winners and Their Neighbors: Evidence from the Dutch Postcode Lottery
— American Economic Review, 2011
Numa loteria que sorteia semanalmente um código postal e distribui dinheiro e um carro aos participantes daquela área, os efeitos sobre o consumo dos ganhadores ficaram em grande parte confinados a carros e outros bens duráveis, e não participantes que moravam ao lado de ganhadores apresentaram consumo de automóvel significativamente mais alto do que outros não participantes. Volume 101, número 5.
Dúvidas comuns
Por que aumentei de salário e não sobrou nada?
Uma explicação com apoio na pesquisa é a comparação social: a exposição a padrões de consumo mais altos desloca o gasto, especialmente em bens visíveis. Se o aumento não recebe destino escrito antes de cair, ele é absorvido pelos envelopes variáveis por padrão.
Qual a melhor forma de aproveitar um aumento?
Decidir o destino antes de o dinheiro entrar. Uma fração definida para Poupança e para as Reservas Programadas, com os envelopes variáveis mantidos como estavam por alguns meses, transforma o aumento em decisão consciente em vez de absorção silenciosa.
Esses estudos foram feitos no Brasil?
Não. Um é com dados dos Estados Unidos e o outro com a Loteria de Código Postal da Holanda. O mecanismo de comparação social é geral, mas os números pertencem àqueles contextos e não descrevem domicílios brasileiros.
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