Um mês sem parcelar: o desafio que ataca o mecanismo certo
Um mês sem parcelar são trinta dias em que toda compra é paga à vista, no débito, no Pix ou em uma parcela única. É a versão local do mês só com dinheiro em espécie, que aqui é impraticável, e ataca o mecanismo pelo qual os orçamentos brasileiros quebram de verdade: cada compra parcelada vende um pedaço dos próximos meses antes de eles começarem. O resultado não se mede em sobra, e sim em sair do mês sem nenhuma parcela nova aberta.
Por que este é o desafio certo aqui
A versão importada deste desafio é o mês só com dinheiro em espécie: você saca o gasto variável do mês e vive com o que está na carteira. Isso não funciona aqui, e não por falta de disciplina. Com Pix e cartão dominando o dia a dia, sacar um mês inteiro de gasto variável é impraticável e desconfortável, e a metade das suas compras nem aceita bem o papel. O equivalente honesto é remover o outro mecanismo, o que empurra o gasto para frente: parcelar. Comprar em dez vezes não gasta o dinheiro deste mês, gasta o dos próximos dez, e é por isso que a fatura chega grande num mês em que você jura que não comprou nada.
Antes do dia 1: liste o que já está vendido
Abra a fatura e escreva todas as parcelas em aberto, com o valor de cada uma e quantas faltam. Some o que cai no mês que vem: esse número é a fatia da sua renda que já tem dono antes de você acordar no dia 1. Depois faça a mesma soma para cada um dos próximos doze meses, porque uma compra em doze vezes feita em maio ainda está viva em abril do ano seguinte. Quase todo mundo que faz essa lista pela primeira vez descobre dois ou três compromissos que tinha esquecido completamente. A lista não é castigo, é o ponto de partida: você não consegue decidir sobre os próximos meses sem saber quanto deles já foi vendido.
As regras dos trinta dias
Regra única: toda compra nova é paga à vista, no débito, no Pix, no boleto do mês ou em uma parcela só no cartão. Nada de parcelamento novo, nem no cartão, nem no Pix parcelado, nem no carnê da loja. O que já estava parcelado continua sendo pago normalmente e não conta como quebra, porque é dívida assumida antes. Nomeie duas exceções no dia 1, com teto: uma emergência real, do tipo que impede você de trabalhar ou de morar, e um compromisso já assumido. Escreva as duas antes, porque exceção improvisada no caixa se expande. Tudo o mais que não couber à vista simplesmente não é comprado neste mês.
Quando aparecer uma compra grande
Vai aparecer, e provavelmente com um bom motivo. A resposta do desafio não é nunca, é ainda não. Escreva o item na lista de espera com a data e volte nele em trinta dias. Se ele sobreviver, abra uma reserva programada com o valor cheio dividido pelos meses que você levaria para juntar e comece a encher: no fim, você compra com dinheiro que já é seu, e o mês da compra não fica preso a mais nada. É a mesma matemática do parcelamento, invertida no tempo. A diferença prática é que, se algo der errado no meio, você para de aportar; com a parcela, você continua devendo.
Compare o preço à vista com o total parcelado
Antes de aceitar qualquer parcelamento, mesmo depois do desafio, faça uma comparação simples: pergunte o preço à vista e multiplique a parcela pelo número de vezes. Às vezes os dois números são iguais e às vezes não são, e isso varia por loja, por produto e por forma de pagamento, então a única forma de saber é perguntar naquela compra. Não acredite na sua memória de outra loja. Essa é uma checagem de trinta segundos que o desafio te obriga a fazer, e ela é útil para sempre, porque a decisão de parcelar quase nunca é apresentada com os dois números lado a lado.
O que medir no fim, e o ajuste de envelopes
O resultado não é sobra. São três coisas: nenhuma parcela nova aberta em trinta dias, o valor total das suas parcelas caindo mês a mês conforme as antigas terminam, e uma lista escrita das compras que você quase parcelou. Para rodar, monte dois envelopes. Um chamado Fatura, bancado com a soma das parcelas do mês, para o dinheiro estar separado antes do vencimento. Outro chamado Compras à Vista, que é o teto do que você pode comprar sem empurrar nada para frente. Lance tudo na mão, na hora, e deixe o envelope da Fatura no widget: o número que encolhe todo mês é a única prova de que o desafio funcionou.
Dúvidas comuns
As parcelas que eu já tenho contam como quebra do desafio?
Não. Elas são decisões antigas chegando na conta, e pagar todas normalmente é obrigação e não recaída. O desafio é sobre não criar compromissos novos por trinta dias. Aliás, é justamente durante o mês que fica visível o tamanho do que você já tinha assumido, porque a fatura chega cheia mesmo com você não parcelando nada. Registre as parcelas antigas no envelope da Fatura, marque quantas faltam em cada uma e acompanhe o total caindo. Esse total descendo é o resultado que interessa.
Parcelado sem juros não é de graça?
Não dá para afirmar isso de forma genérica, e nós não vamos afirmar. O que dá para dizer com segurança é o procedimento: pergunte o preço à vista e compare com a parcela multiplicada pelo número de vezes, naquela compra específica, porque a diferença entre os dois valores varia por loja e por produto. E existe um custo que independe disso: cada parcela ocupa uma fatia dos seus próximos meses, e meses futuros também têm contas. Mesmo quando o preço é idêntico, você está entregando flexibilidade futura em troca de conforto hoje.
E se eu precisar mesmo comprar algo grande neste mês?
Se for uma emergência real, do tipo que impede você de trabalhar, de morar ou de cuidar da saúde de alguém, use a exceção que você nomeou no dia 1, lance o gasto e siga com o resto do mês intacto. Se não for emergência, coloque na lista de espera de trinta dias e abra uma reserva programada com o valor dividido pelos meses que você levaria para juntar. Quase nada que parece urgente no dia cinco continua parecendo urgente no dia trinta e cinco, e o que continua você compra com o dinheiro já separado.
Faz sentido repetir esse desafio todo mês?
Faz mais sentido transformá-lo em regra do que repeti-lo como evento. A versão permanente costuma ser um teto: um número máximo de parcelamentos abertos ao mesmo tempo, ou um valor máximo de parcelas somadas por mês, definido por você a partir da lista que fez no dia 1. Um mês inteiro sem parcelar serve para produzir a lista, mostrar o tamanho do compromisso e provar que dá para viver assim. Depois disso, o teto escrito faz o trabalho sem exigir força de vontade todo mês.
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